O Baile da Paz prega o bom convívio entre os bondes. Foto: Igor Marques
Esses bailes ficaram fechados por muitos anos devido à violência entre bairros e à repressão policial, mas o funk de Pernambuco não está morto. Existe um evento retomando a tradição: o Baile da Paz, realizado pela equipe Funk Antigo de Pernambuco (FAPE) desde 2016, com a proposta de reverenciar os estilos clássicos do funk.
Antigamente os bailes do Recife eram divididos em diferentes bondes (ou galeras), que representavam seus bairros e rivalizavam com outras comunidades em rituais de luta. Era formado um “corredor”, onde membros de diferentes bondes dançavam se batendo, lembrando uma roda de pogo — assim como ocorria nos bailes do Rio de Janeiro. Mas essa disputa também foi se misturando com o tráfico de drogas e a rivalidade das torcidas organizadas dos times de futebol da cidade. Assim, os conflitos foram ficando mais pesados na virada da década de 1990 para os anos 2000.
O Baile da Paz é uma iniciativa que busca acabar com esse estigma violento. Bondes de diferentes bairros frequentam a festa com o intuito de curtir sem brigas, em festas realizados no Clube Recreativo da Compesa, no bairro do Engenho do Meio. A PV (sigla para Praia Verde), do bairro de Rio Doce, em Olinda, é um dos principais desses bondes. Acompanhamos o bonde da PV até o baile em uma viagem de ônibus. Quem nos recebeu foi o MC Feru, veterano que é um dos líderes da PV e faz de tudo para disciplinar os companheiros de bonde. “Todos os bondes vão lá fazer a festa deles, não vamos brigar, não vamos fazer nada”, alertou repetidas vezes o cantor durante a viagem de ônibus até a quadra onde o baile acontece.
Bonde da PV. Foto: Igor Marques
“Eu sei que alguns mais novos querem ir para brigar. Já tive a idade deles e estive nesse lugar. Eu não julgo. Mas eu aviso a eles que esse é um baile da paz. Só vai se for para ficar de boa”, nos conta, enquanto esperava a saída do ônibus alugado por ele com uma cota do bonde. Aliás, uma das diretrizes da equipe “promover o bom convívio e a interação saudável entre os participantes, levando a ideia do respeito mútuo entre todos, não só dentro como fora dos bailes”.
No baile
O Baile da Paz prevalece como um espaço de afirmação da identidade a partir dos bairros. Os bandeirões de cada bonde (ver galeria de imagens abaixo) são armados na quadra um dia antes da festa e trazem muitas vezes homenagens a moradores que morreram. Os MCs também cantam músicas que exaltam as suas periferias, construindo uma memória afetiva para estas zonas urbanas que não aparecem nos cartões postais e não compõem o circuito turístico do Recife. Em certo momento, um homem de cadeira de rodas foi levantado pelo público, mostrando como o funk pode incluir todas as pessoas, independente de sua condição física.
Elas no funk. Foto: Igor Marques
Elas no Funk
A maioria dos participantes é masculina. Mas nesta edição do evento foi comemorado o aniversário do movimento Elas no Funk. As mulheres ocuparam o palco, cantando músicas exaltando o seu grupo enquanto ocupavam a quadra dançando, mostrando as transformações do ambiente funk.
No baile, homens e mulheres dançam em duplas. Eles dão a mão enquanto rodam e se jogam no ar fazendo piruetas. A confiança no outro e a solidariedade são os elementos fundamentais destes movimentos. O que os permite realizar os pulos acrobáticos e os impede de cair é precisamente o apoio do seu parceiro. No fundo, esta dança é a metáfora que simboliza o Baile da Paz: é a força da amizade e solidariedade sem a qual é impossível voar.
"Este artigo foi originalmente publicado no site EMBRAZADO"